Cadernos de a
COLE

O
Trabalho no
Campo
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Ao longo de sua histria, o Brasil tem enfrentado o problema da excluso social que
gerou grande impacto nos sistemas educacionais. Hoje, milhes de brasileiros ainda
no se beneficiam do ingresso e da permanncia na escola, ou seja, no tm acesso a um
sistema de educao que os acolha.
Educao de qualidade  um direito de todos os cidados e dever do Estado; garantir o
exerccio desse direito  um desafio que impe decises inovadoras.
Para enfrentar esse desafio, o Ministrio da Educao criou a Secretaria de Educao
Continuada, Alfabetizao e Diversidade  Secad, cuja tarefa  criar as estruturas necessrias
para formular, implementar, fomentar e avaliar as polticas pblicas voltadas para os grupos
tradicionalmente excludos de seus direitos, como as pessoas com 15 anos ou mais que no
completaram o Ensino Fundamental.
Efetivar o direito  educao dos jovens e dos adultos ultrapassa a ampliao da oferta
de vagas nos sistemas pblicos de ensino.  necessrio que o ensino seja adequado aos que
ingressam na escola ou retornam a ela fora do tempo regular: que ele prime pela qualidade,
valorizando e respeitando as experincias e os conhecimentos dos alunos.
Com esse intuito, a Secad apresenta os Cadernos de EJA: materiais pedaggicos para o
1. e o 2. segmentos do ensino fundamental de jovens e adultos. Trabalho ser o tema da
abordagem dos cadernos, pela importncia que tem no cotidiano dos alunos.
A coleo  composta de 27 cadernos: 13 para o aluno, 13 para o professor e um com
a concepo metodolgica e pedaggica do material. O caderno do aluno  uma coletnea
de textos de diferentes gneros e diversas fontes; o do professor  um catlogo de atividades,
com sugestes para o trabalho com esses textos.
A Secad no espera que este material seja o nico utilizado nas salas de aula. Ao contrrio,
com ele busca ampliar o rol do que pode ser selecionado pelo educador, incentivando
a articulao e a integrao das diversas reas do conhecimento.
Bom trabalho!
Secretaria de Educao Continuada,
Alfabetizao e Diversidade  Secad/MEC
Apresentao
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Sumrio
TEXTO Subtema
1. Cidades demaisRelicostumes 6
2. Agricultura familiar 8
3. Um homem que trabalhou o ano todoDiversidades regionais 10
4. Cana-de-acar e o trabalho que mata Maturidade social 12
5. Da terra ns tiramos comidaMiscigenao 14
6. Do caju brasileiro se aproveita at o cheiro Crtica social 17
7. Crianas do MST Trabalhadores 18
8. Logro para la agricultura en Brasil 20
9. Biodiesel: alternativa de emprego e renda 22
10. O paradoxo do mundo dos canaviais 24
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11. Mquina x Homem Identidade nacional 27
12. Os crimes do latifndio commbiente de trabalho 28
13. Terra cho, terra po ndios do Brasil 31
14. Demarcao de terras indgenas e culi32
15. Working the land to feed the people Direitos civis 34
16. O seringueiro valente que sangrou a serpente da misria Origenhadores36
17. Falando sriondios do Brasil 38
18. Os primeiros gritos do campo 40
19. Cresce o cultivo orgnico em Santa Catarina Olhos da alma 41
20. Bananeira capixaba vira matria-prima para arte Arte culinria 44
21. Mesma vida severinarte culinria 46
22. A saga de Jos LourenoArte culinria 56
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No existe pas com mais "cidades" do
que o Brasil. Eram 5.507 quando
houve o ltimo Censo Demogrfico
(2000). A menor, Unio da Serra, no nordeste
gacho, tinha apenas dezoito habitantes.
E no  uma exceo; so noventa as
"cidades" com menos de quinhentos habitantes.
Mas um lugar com to poucos moradores
poderia ser mesmo considerado uma
cidade?
No mundo todo no, mas no Brasil os
critrios de definio do que  uma cidade
so meramente administrativos: toda sede
de municpio  considerada uma cidade,
independentemente da densidade demogrfica
ou outros critrios funcionais.
Mesmo que s tenha quatro casas, nas
quais residam trs famlias de agricultores
e uma de madeireiro (como  o caso de
Unio da Serra, citada acima). De um total
de 5.507 sedes de municpio existentes em
2000, havia 1.176 com menos de 2.000
habitantes, 3.887 com menos de 10.000 e
4.642 com menos de 20.000, todas com
estatuto legal de cidade idntico ao que 
atribudo aos ncleos que formam as regies
metropolitanas, e todas as pessoas
que residem em sedes, inclusive em nfimas
sedes distritais, so oficialmente contadas
como urbanas.
Em outras partes do mundo no existe
um nico critrio para definir o que  cidade
e sim uma combinao de critrios estruturais
e funcionais. Critrios estruturais so,
por exemplo, a localizao, o nmero de
habitantes, de eleitores, de moradias ou,
sobretudo, a densidade demogrfica.
Vale lembrar que tambm no  verdadeiro
o critrio que torna agropecuria
sinnimo de rural e vice-versa; assim, uma
comunidade rural no necessariamente 
agricultora. Critrio funcional  a existncia
de servios indispensveis  urbe.
Se tomssemos por base os critrios
lusitanos, no Brasil existiriam, na melhor
das hipteses, cerca de seiscentas cidades.
Alm da questo da densidade demogrfica
e do fato de ter ainda muitas reas
Crescimento urbano
TEXTO 1
 Trabalho no Campo 6
No futuro, a fora das economias dos ambientes
rurais ser um diferencial de qualidade
CIDADES DEMAIS
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muitas reas intocadas pelas artificialidades
do ambiente totalmente urbano, o
Brasil  mais rural do que oficialmente se
calcula, se considerarmos que h nveis
intermedirios entre o que  campo e o que
 cidade. O que no  negativo, pois hoje
em dia, nos pases do Primeiro Mundo, est
ocorrendo uma valorizao constante de
tudo que se distingue da artificialidade
urbana: paisagens silvestres ou bem cultivadas,
gua limpa, ar puro e mais silncio.
Sob esse ponto de vista, cai o mito de que
ser rural  ruim, sinnimo de misria. E,
depois da proliferao de purgatrios em
torno das aglomeraes urbanas,  impossvel
continuar pensando que seja essa a
soluo para o desenvolvimento de um pas
como o Brasil. Pelo contrrio, as tendncias
mundiais mostram que algumas das principais
vantagens competitivas do sculo 21
depender da fora de economias e ambientes
rurais.
Fonte P Extrado do Almanaque Socioambiental - Instituto
Scioambiental/2004.
Trabalho no Campo  7
Infografe Foto: Monalisa Lins /
AE
A cidade Serra Azul,
interior de So
Paulo, oferece
aos seus moradores
boa infra-estrutura
em sade e
educao, alm
de reas de lazer.
1 Hospital com
permanncia
2 Farmcias
5 Museu e
biblioteca
6 Instalaes
de hotelaria
7 Estabelecimentos de
ensino preparatrio
e secundrio
8 Estabelecimentos de ensino
pr-primrio e creches
3 Corporao
de bombeiros
9 Transportes
pblicos urbanos
e suburbanos
10 Parques e
jardins pblicos
4 Casa de
espetculos e
centro cultural
Um exemplo ilustrativo  o caso
de Portugal, onde a lei determina
que uma vila s possa ser elevada
 categoria de cidade se, alm de
contar com um mnimo de 8.000
eleitores, oferea pelo menos
metade dos servios ao lado.
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BRASLIA  Um em cada cinco trabalhadores
brasileiros est ocupado
no setor agrcola. So cerca de
16,5 milhes de pessoas, segundo a Pesquisa
Nacional por Amostra de Domiclio
(PNAD), do IBGE. Das quais, apenas 1,5
milho tem carteira assinada e cerca de
520.000 so empregadores rurais. Na agricultura,
menos de 10% dos trabalhadores
so legalmente contratados, enquanto a
mdia de formalizao do emprego no pas
 trs vezes maior. Para cada assalariado
com registro em carteira no campo, dois
so contratados na informalidade. Dos
cerca de 11 milhes restantes, dois teros
trabalham por conta prpria ou produzem
apenas o suficiente para comer e um tero
no recebe remunerao alguma.
Esses nmeros mostram a precariedade
desse grande segmento do mercado de
trabalho do pas, que encolheu cerca de
20% entre as dcadas de 1980 e 1990, se
estabilizou nos ltimos cinco anos, mas
no consegue converter em empregos a
expanso do setor agrcola, que cresceu
acima de 5% ao ano no perodo mais
recente. A expanso da rea de fronteira
da monocultura para exportao no teve
capacidade de gerar volume de empregos
 altura das taxas de crescimento, sustenta
o professor Srgio Pereira Leite, da
Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro (UFRRJ), lembrando que o PIB
agrcola no conseguiu passar dos 10% do
total de bens e servios produzidos no pas
nos ltimos dez anos.
Reforma agrria
TEXTO 2
 Trabalho no Campo 8
AGRICULTURA
FAMILIAR
Agronegcio no est criando empregos na mesma proporo do
CHAVE PARA CRIAR
E MANTER EMPREGO
NO CAMPO
Foto: Jos Paulo Lacerda / AE
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Foto: Tammy Green
Campo estril
Ele acredita que no vale a pena investir
no agronegcio como fator de gerao de
emprego e renda no campo. Cita como exemplo
reportagem recente feita pelo Fantstico,
da TV Globo, mostrando que as condies de
trabalho da mo-de-obra contratada pelo
setor sucroalcooleiro so muito precrias. Em
alguns casos, com trabalho anlogo ao de
escravos. E questiona se vale a pena o governo
investir novamente nesse setor, com o
surgimento da demanda externa pelos biocombustveis.
Que tipo de emprego esse
segmento est gerando?, indaga Leite, observando
que os assalariados do setor no se
beneficiaram pelo aumento da produtividade
na produo de acar e lcool.
A objeo do professor no tem a ver
com o combustvel verde, mas sim com a
escolha do modelo econmico de sua produo.
Ele considera que o fornecimento de
matria-prima, mesmo sendo para um setor
estratgico, deve estar associado  capacidade
de gerao de emprego digno. Portanto,
o modelo de produo dos biocombustveis
deveria privilegiar a agricultura familiar
e no o agronegcio. O governo deve
pensar at que ponto aposta todas as fichas
no aumento de segmentos que esto baseados
na explorao de monocultura voltada
para exportao, que no gera emprego.
Ser que isso no  vulnervel?, questiona
Leite, frisando que, quando os preos dos
produtos desabam, o setor entra em crise,
afetando inclusive outros setores.
Fonte P Extrado de Debate Carta Maior - 04/8/2006
Trabalho no Campo  9
crescimento da produo. Sada  a reforma agrria.
 esquerda, seu Jos
Manicoba planta diversos
tipos de hortalias em seu
stio, em Formosa, Gois.
Na foto, plantao
de cana-de-aucar, que
utiliza grandes extenses
para a lavoura.
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UM HOMEM
QUE TRABALHOU
O ANO TODO
ndios do Brasil
TEXTO 3
 Trabalho no Campo 10
Yanahim Mahala Waura
Certo dia fui abrir uma roa bem grande, voc nem ia
enxergar a beira da roa. No incio do ano, eu comecei
a roar, levei um ano roando, durante o dia e 
noite (24 horas), sem comer ou descansar, sem ver minha
famlia e minha esposa que tem oito filhos (quatro homens e
quatro mulheres).
Antes de ir para o mato, avisei minha esposa que eu ia
trabalhar.
Quando eu desapareci daquela casa, meu pai e minha
me comearam a se preocupar comigo. Quando eu passei
dez dias no mato, meu pai, minha me, meus irmos, irms,
filhos e filhas choraram, pensaram que eu tinha morrido no
mato. Meus irmos foram cortar o cabelo de minha esposa.
Cortaram. Ela ficou sem cabelos, como uma viva. A minha
esposa ficou de resguardo.
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A minha rede j tinha sido enterrada no meio da aldeia,
at que acabou a tristeza. Fizeram a festa do Quarup para
alegrar o meu esprito de morte.
Quando acabou a festa Quarup, passaram dois dias, o
meu trabalho acabou. A eu voltei para a aldeia. Quando eu
cheguei em casa, a minha esposa no estava mais l, j tinha
ido para a casa do pai dela. Eu falei para minha me:
 Me, onde foi minha esposa?
A minha me no me reconhecia, ficou admirada!
Ela me respondeu:
 Quem  voc?
 Me, eu sou seu filho. Fiquei um ano trabalhando no
mato, trabalhando para ns.
Logo a minha me correu para o meu ombro, chorando.
Ela me falou:
 , filho, sua esposa est na casa do pai dela, pensvamos
que voc tinha morrido no mato.
Naquele dia, minha esposa j estava comeando a ficar
noiva de outro homem.
Fonte P Histrias de hoje e de antigamente - Professores Indgenas do Parque Indgena do Xingu -
Instituto Socioambiental/MEC - 1998 - pgs. 45-46
Trabalho no Campo  11
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Otrabalho no corte de cana foi tema
de debate, nos dias 30 e 31 de maio,
no encontro Desafios da Indstria
Sucroalcooleira Brasileira no Sculo 21,
promovido pela ONG Acar tico, que tem
sede em Lyon, Frana, e realizado na Fasp
(Faculdades Associadas de So Paulo).
Os pesquisadores Maria Cristina Gonzaga,
da Diviso de Ergonomia da Fundacentro, e
Francisco Alves, professor do Departamento
de Engenharia da Produo da Universidade
Federal de So Carlos, fizeram intervenes
CANA-DE-ACAR
E O TRABALHO
QUE MATA
Os cortadores de cana ganham a metade do que recebiam na
dcada de 90 para cortar 50% a mais do que naquele tempo
Mecanizao e desemprego
TEXTO 4
 Trabalho no Campo 12
Cortadores
de cana em
canavial na
regio de
Sertozinho-SP
Foto: Paulo Liebert / AE
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no painel que discutiu os impactos sociais do
trabalho nesse segmento.
Segundo informao da Unica (Unio
da Agroindstria Canavieira de So Paulo),
atualmente, h no pas 307 usinas em
funcionamento empregando cerca de
440.000 trabalhadores que ganham por
produo.
O trabalho extenuante matou ao menos
catorze trabalhadores nos ltimos dois anos,
mas h denncias de mortes de cortadores
de cana por excesso de trabalho
desde os anos 1980, quando a
meta de produo individual
era de 8 toneladas/dia,
portanto 4 toneladas a menos
do que se estabelece
hoje.
LER/DORT
Os que sobrevivem sofrem
com o envelhecimento precoce e
diversas formas de adoecimento, entre
as quais as LER/DORT, causadas pela repetio
dos movimentos e emprego de fora fsica na
atividade de trabalho.
De acordo com Maria Cristina Gonzaga,
que h doze anos se dedica a pesquisas
nesse setor, em oito horas de trabalho, cada
cortador desfere cerca de 12.000 golpes ou
trinta golpes por minuto.
Dores nas costas tambm so freqentes,
assim como os acidentes com o
faco, contraditoriamente facilitados pelas
luvas de proteo, que no oferecem
aderncia ao cabo da ferramenta.
Para Francisco Alves, a reduo no
nvel de organizao dos trabalhadores e
o aumento do desemprego no campo so
responsveis pela precarizao do trabalho
nesse setor.
Segundo ele, a soluo seria a mecanizao
da atividade acompanhada pela implementao
de polticas pblicas compensatrias,
tanto na regio de onde sai o
trabalhador quanto na regio
em que ele vai trabalhar.
"Acabar com o pagamento
por produo  acabar
com as doenas e
mortes dos cortadores
de cana", afirmou.
J Maria Cristina aponta
a ausncia e ineficincia
do poder pblico na
implementao de polticas
que promovam a sade e a integridade
dos trabalhadores, expressas na fragmentao
de suas aes, a falta de entrosamento
entre as universidades e a subnotificao
de acidentes e doenas ocupacionais como
alguns dos principais problemas do setor.
"No adianta ter as melhores normas
de segurana do mundo se essas normas no
so cumpridas", disse.
Fonte P Extrado do site http://www.observatoriosocial.org.br
Trabalho no Campo  13
No estado de
So Paulo, a meta 
de 12 toneladas/dia por
trabalhador e o piso salarial  de
420 reais, aproximadamente
metade dos dois e meio salrios
mnimos pagos na dcada
de 1990, feitas as devidas
correes.
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 na terra que a gente planta a nossa roa.
A gente planta mandioca.
Tem muito tipo de mandioca.
Tem mandioca de fazer farinha
E de fazer beiju.
Tem mandioca de fazer bebida.
Tem mandioca de comer cozida,
De comer assada.
Os ndios tm roa grande de mandioca.
A gente planta
Milho
Car
Banana
Amendoim
Batata-doce
Abacaxi
Abbora
Fumo
Feijo
Uma poro de tipos de feijo.
A gente planta todo tipo de coisa.
A terra d toda fruta do campo,
D toda fruta do mato:
Pequi
Bacaba
Castanha
Buriti
Macaba
DA
TERRA
NS
TIRAMOS
COMIDA
(Texto do povo xavante)
ndios do Brasil
TEXTO 5
 Trabalho no Campo 14
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Mangaba
Inaj
Murici
Pinho
Pupunha
Aa
D muita fruta gostosa.
Na nossa terra tem abelha que d mel para ns.
DA TERRA NS TIRAMOS MUITA COISA
Na nossa terra tambm d cabaa, d algodo, d urucum.
Tem urucum para fazer corda, para fazer rede e para fazer enfeite.
Tem taquara para fazer flecha.
 na terra que cresce pau para fazer casa, canoa, arco,
Cresce a pacova, o sap, e todo tipo de palha que a gente usa.
NS USAMOS AS COISAS DA TERRA
Ns trabalhamos as coisas da terra.
Ns usamos o barro assim:
Ns pegamos o barro,
Trabalhamos o barro,
E com o barro fazemos panela,
Fazemos boneca,
Fazemos pote.
Ns usamos o buriti.
Tem povo de ndio que pega o talo de buriti
Para fazer cesto, fazer peneira.
Pega a folha de buriti para fazer esteira,
Trabalho no Campo  15
Ilustraes: Alcy
5CA11T02p2.qxd 15.12.06 17:48 Page 15
Cobrir casa, fazer enfeite, fazer abano.
Muitos povos usam o buriti
Para fazer a roupa de danar!
Ns usamos uma poro de coisas da natureza.
NOSSO JEITO DE TRABALHAR
Nosso jeito de trabalhar  assim:
Tem trabalho de homem.
Tem trabalho de mulher.
Homem no faz trabalho de mulher.
Mulher no faz trabalho de homem.
O homem precisa do trabalho da mulher.
A mulher precisa do trabalho do homem.
A comunidade precisa do trabalho de cada um.
A gente gosta de trabalhar junto.
Os homens se renem todos para derrubar a roa.
A mulherada toda faz a comida, faz a bebida.
Quando a comunidade se rene para trabalhar junto,
Isso se chama mutiro.
Os ndios gostam de trabalhar em mutiro.
Quando ajunta todo mundo
 bom de trabalhar!
A comunidade fica alegre!
 Trabalho no Campo 16
Fonte P Do livro: Histria dos Povos Indgenas - Editora Vozes -
1982 - Autores Indgenas.
Texto 5 / ndios do Brasil
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Mini-fbricas estimulam o potencial da fruta.
Trabalho no Campo  17
Quem do caju s come a castanha,
E nunca viu um cajueiro,
No sabe a fora tamanha
Desse fruto brasileiro
Se a castanha saborosa
Satisfaz o paladar do
Mundo inteiro, imagine
O maravilhoso caju, maduro
Que d o doce, a cajuna
E o suco sempre prazenteiro.
Esse caju, que  o milagre
Da natureza benfazeja,
Agora tira o agricultor
Das garras da cruel pobreza
Com financiamento certo
Tecnologia, assistncia
E a fbrica funcionando
O pobre se torna altaneiro,
Gracas ao caju cultivado,
Esse fruto alvissareiro.
O fruto  importante
instrumento de
desenvolvimento
da agroindstria
nordestina
Fruticultura tropical
TEXTO 6
Fonte de alimentos e de riqueza desde antes da colonizao,
o caju nem sempre tem sido bem aproveitado.
Na produo de 200.000 toneladas de castanhas
ao ano, 90% para exportao, esto envolvidas
300.000 pessoas, das quais 255.000 so agricultores
familiares. Porm, a colheita, o transporte e a industrializao
inadequados fazem com que se percam um
tero da castanha e 85% da polpa.
DO CAJU
BRASILEIRO
SE APROVEITA
AT O CHEIRO Ilustraes: Alcy
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CRIANAS
DOMST ENSAIO
Reforma agrria
TEXTO 7
 Trabalho no Campo 18
Texto e fotos: Ruy Fraga
Aprimeira impresso que eu tive
quando cheguei no primeiro acampamento
do Movimento Sem Terra,
interior do Rio Grande do Sul,  que no
precisaria me esforar muito, ou montar
uma cena: estava tudo ali.
A luz que vazava pelas rvores e inundava
as crianas que brincavam, as lonas
pretas contrastando com a boneca americana
na mo da menina.
A idia era fotografar as crianas felizes
 como realmente so  e fugir da idia
miservel que as fotos do MST costumam
passar. Acho que consegui. No por mrito
meu, mas porque so crianas realmente
inteligentes, lindas, felizes, j abraando a
luta de seus pais: a reforma agrria e o amor
pela terra.
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Trabalho no Campo  19
Crianas brincam nos
vrios acampamentos
e assentamentos do MST
no Rio Grande do Sul.
Em cada um deles h
escola e brinquedos feitos
especialmente para eles.
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Desde el julio de 2006, con la ley
11.322/06, el agricultor familiar y
la agricultura familiar pasaron a
ser reconocidos como un segmento productivo.
Se garantiza as, las polticas
pblicas orientadas hacia ese sector.
La inexistencia de clasificacin de los
productores como agricultores o agricultoras
familiares  hasta ahora exista solamente
la definicin de lo que es pequea
propiedad rural  generaba un vaco conceptual
para la aplicacin de polticas
pblicas fundamentales, como el de la
Previdencia Social.
La agricultura familiar en Brasil es responsable
por ms del 40% del valor bruto
LOGRO PARA LA
AGRICULTURA EN BRASIL
Texto adaptado por Daniel Barrantes
Agricultura familiar
TEXTO 8
 Trabalho no Campo 20
Helismar Neuberguer e Gisele
Adriano, na fazenda Anoni,
no Rio Grande do Sul.
Foto: Jonne Roriz / AE
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de la produccin agropecuaria y sus cadenas
productivas corresponden al 10% de
todo el PBI del pas. Rene a 4,2 millones de
agricultores, representa el 84% de los establecimientos
rurales y emplea al 70% de la
mano de obra del campo. Adems, es responsable
por la mayora de los alimentos
que llegan a la mesa de los brasileos: 84%
de la mandioca, 67% del poroto, 58% de los
porcinos, 54% de la cra de vacas lecheras,
49% del maz, 40% de las aves y huevos,
32% de la soya, entre otros.
Para ser considerado un agricultor
familiar, el ciudadano debe:
 no detentar un rea mayor que cuatro
mdulos fiscales (unidad patrn para
todo el territorio brasileo);
 utilizar, predominantemente, mano de
obra de la propia familia en las actividades
econmicas de su emprendimiento;
 tener una renta familiar mayoritariamente
originada de actividades econmicas
vinculadas al propio establecimiento
o emprendimiento;
 y dirigir el establecimiento o emprendimiento
con la ayuda de la familia.
Con la nueva ley:
 la agricultura familiar pasa a ser reconocida
como un segmento productivo y
se acaban las dudas sobre su conceptuacin
legal;
 garantiza la participacin de agricultores
y agriculturas familiares en la formulacin
de las polticas;
 las relaciones de trabajo y organizaciones
en ese segmento se fortalecen con
la aplicacin de diversas polticas fundamentales
para los agricultores familiares,
como el de la Previdencia Social;
 y los rganos gubernamentales podrn
adoptar ese concepto para aplicar otras
medidas en beneficio del segmento.
Extrado do site: http://www.adital.com.br
Trabalho no Campo  21
GLOSARIO
Cadena. corrente, cadeia
Cuatro. quatro
Duda. dvida
Generar. gerar
Hasta ahora. at agora
Huevo. ovo
Lechera. leiteira
Maz. milho
rgano. rgos
Patrn. padro, patro
Porcino. suno
Poroto. feijo
Vaco. vcuo, lacuna
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Energia renovvel
TEXTO 9
 Trabalho no Campo 22
BIODIESEL
ALTERNATIVA
DE EMPREGO
E RENDA
Para abastecer oitocentos postos
com 600 milhes de litros de
biodiesel, ser necessria a
participao de 208.000
agricultores.
Foto: Epitcio Pessoa / AE
Aparelho biodigestor
que filtra o leo da
mamona antes de virar
Biodiesel, na empresa
Ceralit, em Campinas,
interior de So Paulo.
9CA11T24p2.qxd 14.12.06 00:32 Page 22
Obiodiesel  uma importante alternativa
energtica que deve gerar emprego
e renda ao agricultor familiar.
 produzido a partir de oleaginosas, como
girassol, mamona, pinho manso e dend,
que proliferam na produo da agricultura
familiar e nos assentamentos da reforma
agrria.
Cerca de 35.000 famlias j participam
da cadeia produtiva do biodiesel e, para
atender o aumento de encomendas, ser
necessria a participao efetiva de 208.000
agricultores familiares envolvidos no cultivo
de oleaginosas, sendo a maioria da
regio Nordeste.
A principal utilizao do biocombustvel
 em mistura com o diesel, que, a partir
de janeiro de 2008, ser obrigatria.
Todo diesel brasileiro ter pelo menos 2%
de biodiesel. Alm de ser um combustvel
renovvel, o biodiesel emite menos enxofre
na atmosfera, reduzindo a poluio causadora
do efeito estufa e de problemas respiratrios.
Alm disso, os tomos de oxignio
do biodiesel lubrificam melhor, aumentando
assim a vida til de peas do motor a
diesel.
H-Bio, outra boa promessa
A Petrobras est fazendo testes com
mais uma alternativa de combustvel, o HBio,
um novo tipo de leo diesel produzido
a partir de uma mistura de petrleo e com
18% de leo vegetal. Por enquanto, os testes
tm sido feitos com leo de soja. Se der
certo, tambm vai reduzir o teor de enxofre
lanado na atmosfera.
O processo de produo do H-Bio 
mais complexo e mais caro que o do biodiesel.
Com isso, a produo s  vivel
para grandes refinarias de petrleo que j
possuem equipamento apropriado.
Fonte P http://www.mda.gov.br/
Trabalho no Campo  23
A soja  uma das materias-primas para o biodiesel
Foto: Bill Strong
9CA11T24p2.qxd 14.12.06 00:32 Page 23
H quinze anos, um trabalhador cortava,
em mdia, seis a sete toneladas
de cana-de-acar por dia. Hoje,
no mnimo, corta 10 toneladas. Intensificaram-
se o ritmo e a jornada de trabalho. Ou
seja, para que o trabalhador seja competitivo
com a mquina, a sua referncia passa
a ser a prpria mquina. Ele tem que ser
to eficiente como ela, e por um salrio cada
vez menor. Assim, a tecnologia, em vez
de melhorar, piora as condies do trabalhador.
Antigamente, entre as dcadas de 1950
e 1970, quem vinha cortar cana em So
Paulo eram os pequenos produtores do Vale
do Jequitinhonha, Minas Gerais. Quando
chegava a poca da entressafra do roado,
Mais produo
por menor
pagamento
Desemprego rural
TEXTO 10
O PARADOXO
DO MUNDO DOS
CANAVIAIS
 Trabalho no Campo 24
10CA11T07p2.qxd 14.12.06 00:43 Page 24
Trabalho no Campo  25
como no havia o que fazer, os homens
vinham trabalhar nos canaviais paulistas.
As famlias ficavam em Minas, os homens
mandavam o dinheiro e, quando acabava
a safra, voltavam para a sua terra.
Mais para o final da dcada de 1970, a sociedade
estava mais organizada, o movimento
sindical, com suas greves e presses,
trouxe algumas conquistas econmicas
para os trabalhadores.
Por coincidncia, novembro, a poca
da colheita de cana,  tambm o ms de
eleies municipais. Com isso, os candidatos,
de olho nos votos dos trabalhadores,
doavam terrenos para construir casas em
mutiro, ajudavam a transferir o ttulo de
eleitor para o municpio que lhes interessava
e outros benefcios. Muitos trabalhadores,
ento, acabaram ficando.
Hoje, o problema da fixao  bem diferente
do daquela poca. Primeiro, porque
a possibilidade de ganhar uma sobra
para construir uma casa  muito mais difcil,
pois o salrio diminuiu, e a exigncia
na produo aumentou. Outra mudana 
que os trabalhadores, com o tempo, acabaram
adquirindo prtica de conhecimento e
organizao. E aprenderam a negociar
melhor.
Passaram a recusar corte de cana de
qualidade inferior porque se paga menos
por ela; no tinham mais paradeiro, o que
causava problema para os usineiros, pois
sem corte de cana no h produo e nem
todos podem fazer o trabalho apenas com
mquinas. Ento vo buscar, longe, trabalhadores
que trabalhem como mquinas.
O trabalhador-mquina
Os cortadores de cana de hoje so jovens,
muitos deles vindos pela segunda,
terceira vez, bem acostumados a trabalhar
na terra e sem malcia no trato com a cana.
Na sua terra natal sabem o que plantar,
quando plantar, quanto rende. Na cana,
tero que saber o preo do produto, quanto
cortaram, o tipo de cana. Sem saber
direito como fazer essa conta, cortam, por
exemplo, 200 m2, calculam 150, e recebem
apenas por isso. E o proprietrio fica com
os outros 50... E ainda acham que  melhor
Trabalhadora
corta cana
na regio de
Pederneiras,
no interior
de So Paulo.
Foto: der Azevedo / JC / AE
10CA11T07p2.qxd 14.12.06 00:43 Page 25
do que ficar na sua terra sem ganhar nada
na poca da entressafra.
Esses trabalhadores agora esto vindo
do Maranho e do Piau, e muitos  embora
nem todos  se submetem aos interesses
da empresa.
Sindicalizao precria
Outra questo  que esses trabalhadores
mal tm acesso ao sindicato local. Como
eles vm de longe, de outra estrutura sindical
que tambm no conhece nada sobre
cana, ficam subordinados aos contratantes
de mo-de-obra e freqentemente so prejudicados.
Melhorias e exigncias
Por outro lado, para terem um trabalhador
que consiga cortar 10 toneladas de
cana por dia, os patres no podem lhes dar
o tratamento de antigamente. O cortador de
cana dos dias de hoje no pode comer s
farinha e arroz. Ele precisa de comida forte
para ter fora. Ento melhorou o padro de
alimentao.
Um trabalhador assim precisa descansar
para renovar as foras, ento muitos
alojamentos foram melhorados, com instalao
de chuveiros, coisa que antes no
existia. Em muitos deles, entretanto, os trabalhadores
continuam dormindo em redes
ou em penses precrias. Tambm melhorou
o transporte, muitas fazendas canavieiras
j usam nibus em vez de caminhes.
Em contrapartida, tudo o que  oferecido
em melhorias  exigido em produo.
Texto 10 / Desemprego rural
 Trabalho no Campo 26
Fonte P Extrado da entrevista com Jos Roberto Novaes - Revista do
Instituto Humanitas (Unisinos). Edio no 188, junho/2006.
Foto: Paulo Liebert / AE
Cortadores de cana em
canavial na regio de
Sertozinho, interior de
So Paulo, Avelino
Ribeiro (camisa preta)
e Claudecir dos santos.
10CA11T07p2.qxd 14.12.06 00:43 Page 26
MQUINA XHOMEM
Odesemprego atinge 70% dos trabalhadores
rurais de municpios da
Zona da Mata de Pernambuco no
perodo da entressafra da cana-de-acar
e a fome est levando meninas de 5 a 10
anos  prostituio no eixo das rodovias
federais e estaduais.
A constatao foi feita por levantamento
realizado em 2005 por uma caravana de
mdicos do Conselho Regional de Medicina
(Cremepe) em sessenta cidades pernambucanas.
Foram coletados dados sobre
sade, educao, segurana, alm de
desemprego e trabalho infantil.
Os mdicos ouviram prefeitos, secretrios
municipais, juzes e promotores e visitaram
hospitais e unidades de sade. O
estudo comprovou que o analfabetismo
atinge 45% das populaes das cidades
visitadas.
Em Gameleira, na Zona da Mata, 60%
das crianas sofrem de desnutrio. No
municpio de Glria do Goit, no Agreste,
o ndice de trabalho infantil nas casas de
farinha e nas lavouras de cana-de-acar
chega a 10%.
A equipe de mdicos constatou ser necessrio
direcionar investimentos em promoo
de sade, educao e de incluso
social. O relatrio foi encaminhado aos governos
estadual e federal, Poder Judicirio
alm da Organizao Mundial de Sade.
Desemprego chega a 70% na rea rural
da Zona da Mata de Pernambuco
Fonte P Extrado do site www.paginarural.com.br
Trabalhadores
enfrentam longa fila
para seleo do SINE
(Servico Nacional
de Emprego), em
Vitria de Santo
Anto/PE
Trabalho no Campo  27
Automao rural
TEXTO 11
Foto: Jlio Jacobina / Dirio de Pernambuco / AE
11CA11T14p2.qxd 14.12.06 00:45 Page 27
Durante mais de trs dcadas, a Comisso
Pastoral da Terra tem registrado
violaes contra trabalhadores rurais,
atravs do trabalho de seus pesquisadores
em cada estado, que documentam casos
especficos de despejos, assassinatos, prises
arbitrrias, agresses, leses corporais,
ameaas de morte e tortura. De janeiro
a agosto de 2002, a CPT documentou 34
assassinatos de trabalhadores rurais. De
1985 a 2002, foram registrados 1.150 assassinatos
de trabalhadores rurais, advogados,
tcnicos, lideranas sindicais e religiosas
ligados  luta pela terra. A impunidade 
praticamente a regra geral nesses casos.
Desses 1.150 assassinatos, apenas 121 foram
levados a julgamento. Entre os mandantes
dos crimes, somente 14 foram julgados,
sendo 7 condenados. Foram levados
a julgamento 4 intermedirios, sendo 2
condenados. Entre os 96 executores julgados,
58 foram condenados.
Reforma agrria
TEXTO 12
 Trabalho no Campo 28
Maria Lusa Mendona
Foto: Pablo Valadares / AE
Dom Thomas Balduino, presidente da CPT
(Comisso da Pastoral da Terra), avalia o ano
de 2005 como negativo para a reforma agrria
e para todos os trabalhadores rurais
OS CRIMES
DO LATIFNDIO
O bispo dom Toms
Balduno, presidente
da Comisso Pastoral
da Terra, denunciou:
O Judicirio est
despejando assentados
12CA11T05p2.qxd 14.12.06 01:09 Page 28
Um dos casos mais emblemticos de
violncia contra trabalhadores rurais foi o
massacre de Eldorado dos Carajs, no Par.
Em 17 de abril de 1996, oficiais da Polcia
Militar mataram 19 trabalhadores rurais,
ferindo gravemente outros 69. Alguns meses
depois, outros 2 lavradores morreram
em conseqncia dos ferimentos. Segundo
o mdico legista Nelson Massini, houve
execuo sumria, pois a maioria das vtimas
foi atingida com tiros no peito, cabea
e nuca. Em agosto de 2000, todos os 154
policiais militares acusados de participar
do massacre foram absolvidos. Aquele
julgamento foi anulado e, em 2001, outro
jri condenou somente 2 oficiais. Apesar
disso, eles continuam em liberdade por
meio de recurso. O Par  o campeo da
violncia contra trabalhadores rurais. Os
registros da CPT mostram que, de 1971 a
2002, ocorreram 726 assassinatos de camponeses
no Estado.
O Paran tambm possui um grande
nmero de violaes. Segundo a CPT, "o
governo Jaime Lerner foi responsvel por
uma onda de violncia que deixou 16 trabalhadores
assassinados, 31 vtimas de
atentados, 47 ameaados de morte, 7 vtimas
de tortura, 324 feridos, 488 presos,
em 134 aes de despejo". Atualmente
existem 62 acampamentos, com 13.000
famlias sem terra no Paran, vivendo em
precrias condies. A reao dos ruralistas
tem sido intimidar os trabalhadores,
atravs da organizao de milcias armadas.
Recen- temente foi encontrada uma
listas com nomes de trabalhadores ameaados
de morte. O assassinato do militante
do MST Francisco Nascimento de Souza,
que fazia parte da lista dos marcados para
morrer, demonstra como os pistoleiros tm
atuado com impunidade no Paran.
Pernambuco representa outro grave
foco de violncia. Segundo a CPT, de 1995
at 2001 ocorreram 14 assassinatos de trabalhadores
rurais, 43 casos de tortura, 232
prises arbitrrias e 416 casos de agresso
fsica e ferimentos, em 842 conflitos de
terra. Desde o perodo colonial, a regio
tem sido marcada pela permanncia da
monocultura da cana-de-acar, controlada
por grandes latifundirios. Com a falncia
Trabalho no Campo  29
0 328
km
N
Eldorado dos
Carajs
PAR
MARAN RANHO RAN
TOCANTINS MATO GROSSO
AMAZONAS
RORAIMA
AMAP
Belm Belm
Oceano
Atlntico
12CA11T05p2.qxd 14.12.06 01:09 Page 29
do setor, trabalhadores rurais passaram a
reivindicar a posse das terras ociosas. De
acordo com Marluce Cavalcanti, assessora
da CPT, "nos ltimos quinze anos, mais de
150.000 postos de trabalho foram
extintos com a crise do setor
sucroalcooleiro. A regio possui
mais de 40.000 famlias acampadas
em terras improdutivas".
Na maioria desses acampamentos,
as famlias aguardam durante
anos a regulamentao da terra.
Atualmente, crescem as ameaas
de despejo, como no caso do
Engenho Prado, em Nazar da
Mata. Em julho, o juiz da comarca
local, Carlos Alberto
Maranho, determinou o despejo
e a demolio de residncias,
igrejas e lavouras construdas
por trezentas famlias que viveram
na rea durante seis anos.
Os advogados da CPT argumentam
que as benfeitorias e lavouras
cultivadas pelos trabalhadores foram avaliadas
em 5 milhes de reais, mostrando a
viabilidade econmica daquela comunidade,
que abastecia com alimentos as
feiras de cinco municpios da regio.
No estado de So Paulo, a principal
forma de represso so as prises arbitrrias
na regio do Pontal do Paranapanema. De
2002 at meados de 2003 foram decretadas
28 prises de integrantes do MST pelo
juiz tis de Arajo Oliveira, da comarca de
Teodoro Sampaio.
Todas essas aes tm sido
contestadas no Tribunal de Justia
de So Paulo, no Tribunal de
Alada Criminal ou no Superior
Tribunal de Justia. Recentemente,
o ministro do STJ Paulo Medina
concedeu liberdade para
Mrcio Barreto e Valmir Rodrigues
Chaves, afirmando que
estes "so obreiros rurais integrantes
do MST, que lutam e
sacrificam-se por mais razovel
meio de vida, onde a dignidade
social somente pode ser restaurada
no momento em que se
fizer a verdadeira, necessria e
indispensvel reforma agrria no
pas".
Esse tipo de deciso contribui
com a formao de uma jurisprudncia
respeitada em defesa da reforma agrria.
O Estado brasileiro possui todos os mecanismos
necessrios para democratizar a
terra, alm do amplo apoio da sociedade.
Texto 12 / Reforma agrria
 Trabalho no Campo 30
Maria Lusa Mendona  jornalista e diretora da Rede Social de Justia
e Direitos Humanos. Texto publicado na revista Caros Amigos Especial
Reforma Agrria, de setembro de 2003.
AS MORTES
NO CAMPO
1150 assassinatos
1985 a 2002
21 levados
a julgamento
MANDANTES
14 julgados
7 condenados
INTERMEDIRIOS
7 julgados
2 condenados
EXECUTORES
96 julgados
58 condenados
Fonte: CPT (Comisso
pastoral da Terra)
12CA11T05p2.qxd 14.12.06 01:09 Page 30
Trabalho no Campo  31
Rasteira, alta ou baixa...
 sempre cho!
Morena, plida, escura, clara...
 sempre cho!
Penhascos, pntanos e desertos...
 sempre cho!
Fundo do mar, dos rios e vales...
 sempre cho!
 terra,  vida, germinao!
Terra gentil, hmus da vida
Fora contida que faz gerar
Massa que guarda corpos, razes...
Campos felizes, festa, cano.
Terra molhada, seca, curtida
Fora mantida em proteo
Folhas curtidas, flores, perfumes...
Coisas... costumes da tradio.
Terra plantada, planta, colheita...
Que se deleita ao ver sorrir
Fome saciada, palha comida
Refeita a vida, volta a dormir.
Rasteira, alta ou baixa...
 sempre po!
Morena, plida, escura, clara...
 sempre po!
Penhascos, pntanos, desertos...
 sempre po!
Fundo do mar, dos rios e vales...
 sempre po!
Sempre h uma vida em qualquer espao
H sempre um brao estendendo a mo.
Vida! Vida! Por que tens que ser tanto dividida?
TERRA
CHO,
TERRA
PO
Reforma agrria
TEXTO 13
Ademar Bogo
Ademar Bogo  poeta, militante do Movimento
dos Trabalhadores Sem Terra - MST
13CA11T17p2.qxd 14.12.06 01:10 Page 31
Oproblema mais grave ocorre em
Mato Grosso do Sul, onde existem
mais de noventa terras indgenas
sem demarcao. Os ndios vivem em situao
de confinamento, em pequenas parcelas
de terra cercadas por fazendas. Alm
disso, o estado  recordista de denncias
no relatrio A Violncia contra os Povos
Indgenas do Brasil, organizado pelo Conselho
Indigenista Missionrio, o Cimi.
O ndice de violncia  muito alto. Pelo
fato de no terem seu territrio demarcado,
os povos indgenas e todos os que
habitam aquela comunidade so expostos
a toda ordem de violncia, seja externa,
praticada por jagunos, policiais e fazendeiros,
seja interna, entre eles mesmos.
Nesse caso, a briga  geralmente provocada
por falta de espao. Tambm aumentou
o problema de alcoolismo e suicdio:
nos ltimos dez anos, mais de quatrocentos
indgenas tiraram a prpria vida num
processo de autodestruio.
Organizao e luta
Apesar de habitarem o Brasil cerca de
4.000 anos antes da chegada dos colonizadores
portugueses, os indgenas ainda
precisam lutar para viver em suas terras.
Hoje, eles no tm uma organizao nacio-
DEMARCAO
DE TERRAS
INDGENAS
A luta pela terra
TEXTO 14
 Trabalho no Campo 32
Foto: Milton Michida / AE
14CA11T20p2.qxd 21.01.07 17:54 Page 32
nal, mas conseguem se mobilizar e isso
constitui uma fora poltica importante.
Nos ltimos anos houve duas significativas
vitrias para o movimento indgena
fruto da presso social. A primeira foi a demarcao
da Reserva Raposa Serra do Sol
em 2005, resultado de mais de trinta anos
de reivindicao. A outra foi a assinatura
da Conveno 169 da Organizao Internacional
do Trabalho (OIT), que desde
1991 assegura aos povos indgenas de todo
o mundo o direito  terra, organizao e
auto-reconhecimento. Essas garantias j
esto na Constituio Federal, mas era importante
reafirm-las.
Outro episdio importante foi o encontro
dos guaranis no incio de 2006, em So
Gabriel (RS), no aniversrio de 250 anos
da morte do lder indgena Sep Tiaraju.
Milhares de brasileiros, paraguaios, argentinos
e bolivianos se reuniram para relembrar
sua cultura e tirar encaminhamentos
para seguir com as articulaes.
Trabalho no Campo  33
De acordo com o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatstica
(IBGE), o Brasil tem hoje cerca de
740.000 indgenas divididos em
mais de duzentas etnias. Metade
deles vive nas periferias dos
grandes centros urbanos, expulsos
de suas terras tradicionais.
Fonte P Extrado do site do MST http://www.mst.org.br/
ndios da
aldeia Krukutu,
em Parelheiros,
na zona sul
de So Paulo,
fazem artesanato.
Cidade
Dutra
Graja Parelheiros
Marsilac
So Bernardo
do Campo
Diadema
Embu-Guau
Itapecerica
da Serra
0 4
km
So Paulo
Infografe
14CA11T20p2.qxd 21.01.07 17:55 Page 33
Brazil is one of the world's biggest producers of
food but 1/3 of the population is hungry. The
governments of the rich countries and the big
corporations say that the only solution to this problem is
to have free markets and to develop genetically modified
food (GM food). But this is not a simple solution.
In Brazil, a political movement with a different solution
exists. The Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST)  the Landless Rural Workers Movement  is now one
of Brazil's biggest popular movements. The MST wants to
encourage the poor people of Brazil with land reform and
education. The MST takes direct action  it occupies large
farms and organizes demonstrations in big cities.
Twenty years ago there was a secret war in the vast
interior of Brazil. The war was between poor farmers and rich
landowners. Because of this war almost 5 million people lost
their houses in the 3 southern states of Brazil. They became
Produo rural
TEXTO 15
 Trabalho no Campo 34
WORKING
THE LAND
TO FEED THE
PEOPLE Nelson Guacelli, now
mayor of Pontal, was
once a landless worker
in Rio Grande do Sul.
Foto: Jonne Roriz / AE
15CA11T19p2.qxd 21.01.07 18:03 Page 34
sem terra or landless. Many people who protested against the
situation were assassinated. Between 1981 and 1984, 277
leaders, union officials and rural workers were assassinated.
The MST was born in this climate of violence. It wasnt easy.
They invaded big farms not in use. They copied the big
farms style of administration, using pesticides and fertilizers,
but it was not successful. They became sick with the
chemicals. The soil was exhausted. Slowly the families began
to use more traditional forms of planting and decided to plant
the necessary to live.
The Brazilian government's reform program distributed
land to 260,000 families, but in the same period (1995-1999)
more than 1 million small farmers lost their land because
of the pressure of the market. Only the big exporters
of soyabeans, coffee and orange juice and the multinational
companies are successful.
Fonte P www.onestopenglish.com
The Guardian Weekly, 4/7/2002, page 22
Trabalho no Campo  35
GLOSSARY
Ago. atrs/passados
Became. tornou-se/tornaram-se
Between. entre
Biggest. maior/maiores
Chemicals. produtos qumicos
Country. pas
Farm. fazenda
Food. comida
Free markets. mercados abertos
Hungry. ter fome/faminto
Land. terra
Landowners. latifundirios
Lost. perdeu/perderam
Now. agora
Orange juice. suco de laranja
Poor farmers. fazendeiros pobres
Rich. rico
Sick. doente
Soil. solo
Soybeans. gros de soja
To develop. desenvolver
War. guerra
15CA11T19p2.qxd 21.01.07 18:03 Page 35
A vida do seringueiro
Nunca foi de brincadeira.
Enquanto a borracha
Fazia de poucos a riqueza,
O nortista sofria,
Na floresta traioeira
Sujeito  fome e  sezo,
Deu  economia brasileira
Com seu prprio sacrifcio,
Um precioso empurro.
Mas foi-se o tempo da fama
Adeus capital da borracha,
Adeus Manaus europia
A seringueira foi levada
Para as matas do Oriente
Passou a fazer a fortuna de
Outras terras, outras gentes.
Ficou o seringueiro isolado
Sozinho e desconsolado
Nas garras da misria serpente.
Fonte P Livinho FBB, Fome Zero, extrado do site:
www.cidadania-e.com.br
O SERINGUEIRO
VALENTE QUE
SANGROU A
SERPENTE DA
MISRIA
Economia sustentvel
TEXTO 16
 Trabalho no Campo 36
16CA11T26p2.qxd 14.12.06 01:59 Page 36
De maior exportador de borracha
natural no incio do sculo 20, o
Brasil passou a uma posio secundria
no mercado mundial. Com isso,
milhares de famlias de seringueiros
abandonam a atividade e passam a engrossar
as periferias das cidades. Para
enfrentar esse problema, desde 1985, a
Tecbor, Tecnologia Alternativa para Produo
de Borracha na Amaznia, desenvolve
com o seringueiro, por meio de
tcnicas simples, a Folha de defumao
lquida, FDL, borracha natural de alta
qualidade e valor.
A borracha apagando
problemas sociais
O projeto propicia conservao ambiental
e fortalecimento das comunidades
da floresta  cerca de 210 famlias so
beneficiadas nos estados do Acre, Rondnia,
Par e Amazonas. A produo
desse tipo de borracha rende um salrio
mnimo mensal por seringueiro.
Foto: Herton Escobar / AE
Trabalho no Campo  37
Depois de ultrapassada por
pases orientais, a borracha
brasileira ensaia uma
recuperao com tecnologia
apropriada ao mtodo
extrativista
Seringueiro Donildo Lopes do Santos,
da floresta nacional dos Tapajs
16CA11T26p2.qxd 14.12.06 01:59 Page 37
Ele disse:
 Ora, reforma agrria...
Ela disse:
 Vai dizer que voc  contra?
Ele tentou cair fora:
 O assunto  muito complexo.
Ela insistiu:
 Espera um pouquinho.
 D um beijo, vai.
 Espera. Isto  importante. Eu quero saber.
 O qu?
 A reforma agrria. Voc  contra?
 Por qu? Voc  a favor?
 Mas s sou.
 Voc quer que o velho divida as terras dele?
 Seu pai  latifundirio?
 Tremendo lati.
 Eu no sabia!
 Tem muita coisa a meu respeito que voc ainda no sabe, boneca.
Vem c que eu te mostro...
 Espera. Falando srio.
 D uma beijoca.
 Falando srio, pomba.
 Est bem. O que voc quer saber?
 Seu pai. Quantos hectares ele tem? Ou acres?  acres ou hectares?
Reforma agrria
TEXTO 17
 Trabalho no Campo 38
FALANDO SRIO
Luis Fernando Verissimo
17CA11T25p2.qxd 14.12.06 02:04 Page 38
 E eu sei? Nunca fui l.
 Quantos?
 Um monte.
 Mais ou menos?
 Olha, eles pegam no jipe da fazenda e, num dia, no conseguem
chegar ao fim das nossas terras.
 Meu Deus do cu!
  que o jipe quebra sempre. D um beijo, poxa.
 Pra.
 Vem c, mulher!
 No vou. Olha, nunca pensei, viu?
 O qu? Que o meu velho fosse fazendeiro? Como  que voc
pensa que eu tou pagando a faculdade? E o carro? E o apartamento?
E as nossas alianas de noivado?
 Ele tem terra improdutiva?
 Tem. Exatamente a parte que ele est guardando pra me dar
quando eu casar. A nossa terra, amor.
 Mas... E o seu discurso?
 Bom...
 At eu achava radical. E olha que eu sou meio PT.
 No vamos brigar por causa disto.
 Tudo o que voc vive dizendo. Justia social...
 Confere.
 A insensibilidade dos ricos no Brasil.
 Mantenho.
 Os escndalos dos sem-terra num pas deste tamanho.
 Sustento.
 Vem c. Outra noite, aqui mesmo, neste bar, voc disse que toda
a propriedade  um roubo. Eu achei bacanrrimo.
 Foi uma frase que me ocorreu na hora. Mas escuta...
 E agora vem dizer que  contra a reforma agrria.
 Eu no sou contra a reforma agrria. Teoricamente, sou a favor.
 E ento?
 Voc no entende? Agora no  teoria. Agora so as terras do velho!
Trabalho no Campo  39
17CA11T25p2.qxd 14.12.06 02:04 Page 39
Do I Congresso
Nacional de Lavradores
e Trabalhadores
Agrcolas (I
CNLTA), reunido em 17
de novembro de 1961,
em Belo Horizonte, resultou
uma Declarao
sobre o Carter da Reforma
Agrria proposta na poca pelo que
os congressistas, em sua declarao, chamavam
de "foras retrgradas da Nao" e
s quais imputavam o objetivo de adiar por
mais algum tempo a liquidao da propriedade
latifundiria.
O documento baseava-se em nmeros
contundentes: o Brasil tinha 2,65 milhes de
propriedades rurais para uma populao de
38 milhes de habitantes
vivendo no campo, e
3,39% das propriedades
cadastradas, cerca de
70.000 delas, se estendiam
por nada menos de
62,33% da rea total ocupada
do pas.
O congresso exigia,
ainda, a extenso da proteo da Consolidao
das Leis do Trabalho a todos os trabalhadores
rurais do pas. Esse pedido seria
parcialmente atendido no ano seguinte, 1962,
ainda durante o governo Joo Goulart, com
a aprovao do Estatuto do Trabalhador
Rural.
Acervo: Iconografia
OS PRIMEIROS GRITOS DO CAMPO
Mo-de-obra rural
Os movimentos organizados do meio rural comearam no
meio do sculo passado em torno da reforma agrria e
dos direitos trabalhistas dos camponeses
TEXTO 18
 Trabalho no Campo 40
Desigualdade no campo
70 mil propriedades
2,58 milhes de propriedades 37,67%
62,33%
Fonte: I CNLTA (I Congresso Nacional de
Lavradores e Trabalhadores Agrcolas)
38 milhes
de habitantes
vivendo no campo
Fonte P Publicado originalmente na revista Estudos Sociais, abril de 1962
18CA11T16p2.qxd 30.01.07 15:43 Page 40
Agroecologia
TEXTO 19
Trabalho no Campo  41
CRESCE O
CULTIVO ORGNICO
EM SANTA CATARINA
No pas, Santa Catarina est despontando,
pelas suas caractersticas fundirias,
sociais e culturais, como o estado
em que a agricultura sustentvel e
agroecolgica possui condies para atingir
um grande nmero de agricultores, sobretudo,
aqueles oriundos da pequena agricultura
familiar, que perfaz praticamente 90%
do total de agricultores.
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Texto 19 / Agroecologia
 Trabalho no Campo 42
Mais recentemente, com a criao da
Rede Ecovida, que congrega dezenas de
associaes agroecolgicas no Sul do Brasil,
a agroecologia ganhou novo vigor.
Polticas Pblicas
A agroecologia  uma das propostas do
atual programa do governo estadual (Plano
15), e  estratgica para o Projeto Microbacias
II, pois, por no depender de recursos
externos,  a alternativa mais vivel para os
agricultores mais descapitalizados, pblico
preferencial deste projeto coordenado pela
Epagri. Por estes e outros motivos, a demanda
por esta alternativa comea a se destacar
na maioria dos planos de desenvolvimento
das microbacias ela-borados at o
momento (so 105 mil famlias a serem
assistidas e prev-se a criao de 936 associaes,
sendo 10 grupos indgenas).
A merenda escolar orgnica, importante
ao scio-econmica e cultural, tambm
faz parte do plano de governo atual, atravs
da Secretaria Estadual de Educao e
Inovao, sendo atualmente atendidas 56
mil crianas em mais de 100 escolas bsicas
estaduais. As universidades, tanto estadual
(UDESC), federal(UFSC) e privadas
(Univali, UnoChapec, Universidade do
Contestado, Unisul, Furb) j possuem li-
Nmero de associaes
1996
5
60
2000
15% a 20%
 o crescimento
estimado do setor
O potencial
catarinense
Investir na produo agroecolgica significa
acompanhar o que a sociedade est demandando,
no s do mercado, mas tambm
das instituies pblicas. A agricultura
agroecolgica e sustentvel, alm de diminuir
a contaminao ambiental, traz mais
sade, tanto para os produtores rurais, como
tambm para os consumidores. Em geral
reduz os custos de produo, utiliza mais os
recursos existentes na propriedade e torna o
produtor menos dependente de insumos
externos. Na rea social, ajuda a manter o
homem no campo, pois a tendncia  utilizar
mais o trabalho, e com isso agrega mais
a famlia, valoriza o trabalho e traz dignidade
ao ser humano.
Vale ressaltar, que o desenvolvimento
da produo agroecolgica em SC e no
Brasil deve-se, em muito, ao pioneirismo de
grupos e associaes de agricultores como a
Coolmia, Abio, AAO, Apaco, Cepagri, Biorga,
Acevam, Vianei, Apremavi, Agreco, etc.
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Trabalho no Campo  43
nhas acadmicas em agroecologia e desenvolvem
importantes trabalhos na rea, com
benefcios diretos  sociedade.
No Projeto Agroecologia, conduzido
pela Epagri, atualmente trabalham 06
PhDs, 20 Mestres, 09 BSc, sem falar em
outros Projetos da Empresa que j pesquisam
com enfoque agroecolgico, como o
de Arroz, Hortalias, Fruticultura de
Clima Temperado, Plantas Bioativas, Bovinocultura,
Manejo do Solo, entre outros.
Alm dos pesquisadores, um crescente
nmero de extensionistas tem tido cada
vez mais parte de seu tempo demandado
pelos produtores na assistncia em produo
orgnica e agricultura sustentvel.
S o Projeto de Agroecologia da Epagri
j treinou e qualificou mais de 2.000 agricultores,
desde a sua criao oficial em
1998, e tambm capacitou 350 tcnicos at
2004. A agroecologia, por sua prpria natureza,
 integradora. Ela ajuda a congregar
extenso, pesquisa, ensino e agricultor. E 
cada vez maior a articulao dos vrios
segmentos representativos da sociedade,
como sindicatos, ongs, prefeituras, universidades,
extenso rural, cooperativas,
pesquisa agropecuria, etc.
Fonte P Extrado do site: http://www.epagri.rct-sc.br/epagri
Foto: Epitcio Pessoa / AE
Manoel Pequeno
Lipra, 44 anos,
colhendo alface
sem agrotxico
na fazenda
Yamaguishi
2.000 famlias
cultivam produtos orgnico
atualmente no Estado
36 mil toneladas
 a produ anual, o que
equivale a US$22 milhes
Fonte: EPAGRI (Empresa de Pesquisa Agropecuria
e Extenso Rural de Santa Catarina S.A.)
19CA11T15p2.qxd 30.01.07 17:27 Page 43
No Esprito Santo, fibras dos troncos
das bananeiras viram peas de artesanato
e garantem uma nova fonte
de renda.
Elizabeth Rovetta sempre acompanhou
o marido na colheita da banana. Uma vida
dura e o retorno nem vale a pena...
Fica muito difcil para a gente trabalhar
o dia todo na roa, com trs crianas
para cuidar. O que a gente colhe, chega
no final do ms, no d para pagar as
contas, reclama a agricultora Elizabeth.
Para melhorar as condies de vida da
comunidade, o Sebrae fez uma parceria
com a prefeitura de Iconha, no Esprito
Santo. H pouco mais de doze meses, foi
criada uma associao de artess. As agricultoras
aprenderam a transformar a fibra
da bananeira em bolsas, cumbucas, fruteiras
e peas de decorao. Elas ainda vo
para a roa. Mas, em vez de colher a fruta,
levam embora o tronco.
A gente corta o p que produziu
cachos. O produtor colhe os cachos para
a venda e a gente, ento, aproveita a
matria-prima, que  o p, que seria jogado
fora, explica a artes Ana Lcia Biss.
Da casca, as artess tiram cinco tipos
diferentes de fibras, ideais para tranados
ou decorao. O miolo do p da banana
depois vai ser transformado numa massa
consistente para o artesanato.
O miolo  cortado, triturado e prensado.
As artess moldam na massa diversas
Artesanato
TEXTO 20
 Trabalho no Campo 44
VIRA MATRIA-PRIMA PARA ARTE
BANANEIRA CAPIXABA
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Mulheres transformam a fibra de bananeira em peas de artesanato e decorao.
peas. Para fazer cestas e bolsas,  preciso
habilidade no tranado das fibras. Depois,
o artesanato  decorado com pigmentos
naturais extrados de plantas e desenhos
regionais.
Ns tentamos resgatar as heranas
culturais daqui do municpio, que so indgenas,
portuguesas e italianas. Nos inspiramos
em coisas do municpio mesmo.
Olhamos o piso da casa da cultura, que foi
preservado, foi todo restaurado, foi mantido,
conta a artes Valdete Almeida.
Por enquanto, cada artes ganha R$ 50
por ms. Mas, a idia  divulgar o produto
para ampliar o mercado. A associao est
produzindo peas para mostrar em exposies
na Itlia e na Espanha.
Para ns, estar no mercado internacional
 muito bom, porque o produto 
ecologicamente correto e isso  muito
bem visto l fora, diz a diretora municipal
de Cultura, Maria Helena de Mattos.
Ns vamos ter aqui um ncleo bastante
fortalecido, consolidado, e fazendo a diferena
para o estado do Esprito Santo,
acredita Maria Anglica Fonseca, consultora
do Sebrae.
A comunidade vende seus produtos em
feiras de artesanato realizadas em So Paulo,
em capitais do Nordeste e num shopping
center na grande Vitria. O artesanato feito
a partir da bananeira chama a ateno dos
compradores porque todo o material usado
nas peas vem da natureza. Eu me surpreendi.
O material de que  feito e pessoas
que tm um talento desses para construir,
para elaborar com tanta delicadeza. Eu
acho que isso tambm valoriza muito o produto,
observa a consumidora Ana Oliveira.
Trabalho no Campo  45
Adaptado do site www.casosdesucesso.sebrae.com.br
Foto: Luciano Coca / AE
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Nascente do rio Capibaribe no municpio de Poo.
Refazer os caminhos do retirante Severino, protagonista
do auto de Natal Morte e Vida Severina, de Joo
Cabral de Melo Neto foi o objetivo de uma viagem ao serto
pernambucano, para verificar, 45 anos depois, como est aquela
gente de vida difcil que virou poesia nas pginas do livro.
H poucas referncias dos locais de passagem de Severino
na obra. Seu ponto de partida, a serra da Costela, prximo ao
territrio paraibano,  um local fictcio, diz Eduardo Pazera,
professor de geografia da Universidade da Paraba. Como incio
de jornada, tomamos ento a nascente do rio Capibaribe,
na serra do Jacarar, municpio de Poo  tambm nos limites
com a Paraba. O prprio Joo Cabral, no poema O Rio,
que conta a jornada do Capibaribe at sua foz, tambm
comeou a histria naquele lugar. De l, foi s seguir as
cidades  margem do rio at Recife.
Parte da jornada foi feita a p, parte no lombo de mototxi,
jipes-lotao, caminhes, nibus e tudo o que tivesse rodas.
Francisco Chinu  dono de um pedacinho de terra  beira
da nascente do Capibaribe. O rio brota protegido por uma
mata e vai escorrendo at formar uma lagoa, turva e espessa,
tal qual na foz, em Recife. Graas ao olho-dgua que mantm
a terra eternamente mida, aquele lugar no conhece xodo.
Francisco, nove filhos, est l h 56 anos. E meu pai j morava
aqui h uns 80.
Parido, o rio comea a descer a serra do Jacarar, margeando
pequenos stios e casas de taipa. Por graa dos cus, este
ano veio chuva. Chuva para plantar e fazer cultura. Nos ltimos
invernos, a regio via apenas nuvens acumularem-se no
MESMA VIDA SEVERINA
Atravs do serto,
do agreste e da
Zona da Mata
de Pernambuco,
refazendo os
passos de Severino,
protagonista de
Morte e Vida
Severina, de Joo
Cabral de Melo
Neto, constata-se
que pouco mudou
nos ltimos
45 anos.
Trabalhadores sem terra
TEXTO 21
 Trabalho no Campo 46
Por Leonardo
Sakamoto
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cu, sem soltar um pingo sequer de gua. Na poca da seca,
eu atendia mais de dez casos de crianas com diarria por
semana, lembra com certo alvio Ivonete Carneiro, agente de
sade do povoado de Sobrado. A ao desses profissionais,
membros treinados da prpria comunidade, foi fundamental
para que a mortalidade infantil diminusse no nordeste.
 E se somos Severinos/ iguais em tudo e na vida,/ morremos
de morte igual,/ mesma morte severina:/ que  a morte
de que se morre/ de velhice antes dos trinta,/ de emboscada
antes dos vinte,/ de fome um pouco por dia.
Para se ter uma idia, em So Jos da Tapera, interior de
Alagoas, considerado pela ONU o municpio mais pobre do
Brasil, a taxa era de 147,94 mortes para cada mil nascidos
(Angola, h dcadas em guerra civil, apresenta 170 para mil).
Com a ao dos agentes de sade, estimativas no oficiais
apontam queda da taxa de mortalidade em So Jos da Tapera
para perto de cem. A mesma estimativa pode ser aplicada a
todo o serto e agreste: morrem menos crianas, mas ainda se
morre de uma forma vergonhosa.
Pelo menos em Sobrado, as campanhas de vacinao e educao
de mes tm surtido efeito. Antes, quando chegava
maio, as pessoas murmuravam:  ms de morrer criana.
Agora, maio  um ms igual aos outros.
Depois de um ziguezague interminvel, com estradinhas
de terra precrias e rochas nuas despontando do cho, atingese
outro povoado, o de Jacu. A seca de 98 e 99 extinguiu o
aude que abastecia a regio. Os caminhes-pipa no davam
conta da demanda. No lugar da gua, uma fina camada de
p. Outro problema  o emprego. Muitos jovens abandonam
suas casas e seguem rumo a So Paulo para tentar a sorte na
construo civil, em fbricas, no comrcio ambulante ou em
qualquer ocupao que admita mo-de-obra no especializada.
Uns guardam algum dinheiro e voltam. Adalto conseguiu
Trabalho no Campo  47
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at montar um negcio, uma pequena venda na rua principal.
Boa parte das pessoas fica aqui at o dinheiro acabar, diz
ele. Depois, o fluxo segue em direo ao sul novamente.
Outros no conseguem voltar e ficam para sempre, muitos
deles engrossando o contingente de favelados das grandes
capitais.
Povoado de Jacu, municpio de Jataba
 O meu nome  Severino,/ no tenho outro de pia./ Como h
muitos Severinos,/ que  santo de romaria,/ deram ento de
me chamar/ Severino de Maria;/ como h muitos Severinos/
com mes chamadas Maria,/ fiquei sendo o da Maria/ do finado
Zacarias.
Zacarias contraiu um emprstimo no Banco do Nordeste
e no sabe como pagar. Ao contrrio do personagem do poema
de Joo Cabral, este no  coronel nem dono de nenhuma sesmaria,
mas, sim, de um pequeno pedao de cho e de umas
trs cabeas de gado que comprou com o dinheiro emprestado.
Os juros so muito altos, e ele no sabe mais o que fazer.
Opes at existem: devolver tudo e tocar para So Paulo,
contrair outra dvida para pagar a primeira e rezar pela prosperidade
(opo, alis, preferida pela maioria dos pequenos
produtores rurais brasileiros) ou simplesmente no fazer nada
e esperar os credores tomarem tudo. Afinal de contas, o governo
prefere doar cestas bsicas (agora sem o leite) a estruturar
melhores condies para o crdito agrcola.
Ele est entre os que ficam de fora at da esmola governamental
e dependem de doaes da iniciativa privada. Entre
os municpios de Jataba e Santa Cruz do Capibaribe h um
aterro sanitrio que serve a moscas, urubus e seres humanos
de vrios tamanhos e idades. Cludio Emiliano  um deles.
Trabalhava no corte da cana-de-acar na cidade de
Goiana, na Zona da Mata pernambucana. Pelo servio tirava
Texto 21 / Trabalhadores sem terra
 Trabalho no Campo 48
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R$ 100 por ms, mas s havia trabalho para seis meses. Para
sobreviver na outra metade do ano, comeou a catar lixo reciclvel
no aterro de Goiana. Mas o prefeito expulsou todo
mundo que fazia isso e mandou cercar o lixo. Cludio veio
para Santa Cruz do Capibaribe e resolveu ficar de vez.
Construiu uma casa no meio do aterro, com material abandonado
no lixo.
Eu ficava mais doente l do que aqui. Apesar do cheiro
azedo e das moscas que rondam a comida exposta ao ar, ele
consegue tirar mais que o dobro (R$ 240) com a reciclagem
do lixo do que com o corte da cana.
H tempos que a agricultura deixou de ser o grande motor
daquela regio. Cidades como Santa Cruz do Capibaribe e
Toritama aproveitaram a entrada de indstrias txteis em
Caruaru e viram proliferar fabriquetas, confeces e outros
negcios ligados ao vesturio. Muitos moradores pegavam trabalho
terceirizado de empresas maiores, como costurar calas
e pregar zperes e botes. Isso aconteceu h tempos. Hoje, o
emprego que j atraiu nibus de trabalhadores de outras
regies anda em baixa. A pequena Toritama, com quase 18
mil habitantes, v a cada dia sua favela crescer. Retirantes de
outros lugares que vislumbraram na cidade uma possibilidade
de prosperar moram em casas de pau-a-pique.
Jos Clementino da Silva ocupa uma delas, vive de bicos
nas fbricas de roupas  quando aparecem , mas diz que no
arreda p. Mesmo na ltima seca, quando tinha de pagar a
atravessadores R$ 50 por cada 400 litros de gua. Isso para
lavar roupa e fazer comida. Para beber, a gente dava 50 centavos
para cada lata de gua. O dinheiro ganho no servio
literalmente se esvaa.
Os sem-terra
Toritama  a nica cidade, citada nominalmente por Joo
Cabral, que  passagem de Severino em sua caminhada para
Trabalho no Campo  49
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Recife. O retirante foi ajudar em um enterro de outro Severino,
morto  bala por defender um pedao de terra.
- E onde o levais a enterrar,/ irmos das almas,/ com a
semente do chumbo/ que tem guardada?/  Ao cemitrio de
Torres,/ irmo das almas,/ que hoje se diz Toritama,/ de
madrugada./  E poderei ajudar,/ irmos das almas?/ vou passar
por Toritama,/  minha estrada./  Bem que poder ajudar,/
irmo das almas,/  irmo das almas quem ouve/ nossa
chamada./  E um de ns pode voltar,/ irmo das almas,/
pode voltar daqui mesmo/ para sua casa.
Maria da Silva  a coveira do cemitrio de Toritama. Teve
nove filhos, dos quais enterrou quatro. Ela  pau-para-todaobra,
do enterro  exumao. Morre-se muito de bala ainda
hoje.  muito triste.
 beira da estrada que vai para Vertentes, estacas so presas
ao cho, e lonas estendidas. No dia 16 de julho, 800 famlias
do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) ocuparam
uma fazenda ali. Na verdade, um grande terreno baldio
dominado pelo mato e onde no h sinal de produo...
Muitos vieram parar no MST fugindo de trabalho semiescravo
em granjas, criadouros de gado ou confeces no
municpio de Caruaru. Um aude garante gua para os acampados,
que querem que trs fazendas sejam desapropriadas,
num total de 10 mil hectares. Os donos dessas terras seriam,
de acordo com eles, latifundirios que possuiriam outras
fazendas alm dessas. De acordo com Marcelo dos Santos
Silva, um dos coordenadores do acampamento, o Incra
(Instituto Nacional de Colonizao e Reforma Agrria) foi
quem indicou a fazenda que poderia ser ocupada e desapropriada
por no ter feito o recadastramento de propriedades
rurais corretamente.
Texto 21 / Trabalhadores sem terra
 Trabalho no Campo 50
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O governo FHC quer assentar 5 mil famlias no agreste.
Queremos que sejam pelo menos 9 mil, e vamos lutar por
isso, completa Marcelo. Como estamos em ano eleitoral,
acredito que dentro de cinco a seis meses a posse da terra seja
transferida para ns e que montemos um assentamento. Em
todo o estado de Pernambuco, de Petrolina a Recife, h 96
acampamentos como aquele aguardando tambm sua vez.
A idia  plantar palma, algodo e um roado de subsistncia
se o tempo e o clima permitirem,  claro.
Essas pessoas no conhecem a histria de Severino nem o
poema de Joo Cabral, apesar de em toda a jornada no haver
personagens to fiis  idia da obra como l. Em um dia de
chuva repentina, reunidos em roda, contei-lhes a histria do
retirante que sai em busca do direito de lavrar, produzir e trabalhar.
Eles perceberam a similaridade, apesar de quase meio
sculo de separao. Jos Antnio Vereda, de apenas 17 anos,
um dos secretrios do movimento, fixou os olhos no livro.
 Pois fui sempre lavrador,/ lavrador de terra m;/ no
h espcie de terra/ que eu no possa cultivar...
Olha, emprego at tem. Mas eu lhe pergunto: a vida  s
comer? Como se sente um pai que no pode dar um sapato para
o filho descalo? Nenhum pai quer deixar o filho em dificuldades.
Por que no podemos construir um futuro melhor para
que nossos filhos produzam para eles mesmos?" Boa pergunta.
 Essa cova em que ests,/ com palmos medida,/  a
conta menor/ que tiraste em vida./   de bom tamanho,/
nem largo nem fundo,/  a parte que te cabe/ deste latifndio./
 No  cova grande./  cova medida,/  a terra que querias/
ver dividida.
Esperana na barragem
Cortada pelo Capibaribe est Frei Miguelinho, a capital
dos garons". A cidade ganhou esse apelido devido ao fato de
Trabalho no Campo  51
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muitos bares e restaurantes de So Paulo e Recife empregarem
pessoas de l. O xodo ali tambm  muito grande. Visitando
os povoados do municpio, sente-se a falta de jovens andando
pelas ruas. No vilarejo de Placa, s se avistam velhos e crianas.
O prefeito Ivanildo de Oliveira informa, tristemente, que
o fenmeno no ocorre s em Frei Miguelinho, mas em toda a
regio. Muitas famlias colocaram as casas  venda, para ir
embora com o dinheiro.
A maioria, porm, no esperou, e  comum ver casas abandonadas,
com inscries de Vende-se, em que o capim
cresceu tanto que cobriu portas e janelas.
O rio  bem raso nessa regio. D at para um carro atravessar
sem dificuldades. No vero, essa parte do Capibaribe
fica intermitente, com pequenas lagoas se alternando com
grandes bancos de areia. Quando Severino fez sua jornada,
pensou at em interromp-la quando o rio tambm parou a
sua. Uma obra no municpio de Surubim, porm, dezenas de
quilmetros  frente, vai transformar o rumo das coisas.
Finalizada em 1998, a barragem de Jucazinho  uma
parede gigantesca de concreto, com 63 metros de altura por
quase meio quilmetro de largura  est represando as guas
do Capibaribe. O lago, depois de pronto, vai ter 25 quilmetros
de extenso e 327 milhes de metros cbicos de gua. Com ele,
surgiro ilhas no agreste, e jangadas e saveiros sero levados
para o interior de Pernambuco. Cidades como Couro Dantas,
Capivara e Trapi j foram clonadas metros acima e seus habitantes
transferidos antes que as guas tomassem conta de tudo.
A lmina dgua de Frei Miguelinho vai crescer at atingir uma
altura equivalente  de um prdio de quatro andares. O lago
deve chegar at a entrada do municpio de Toritama. Ou seja,
at ali, o Capibaribe permanecer intermitente, e o serto vai
continuar conhecendo um rio de areia no vero.
Adutoras esto sendo construdas para levar gua s
cidades da regio, de Caruaru a Vertentes, j no ano que vem.
Texto 21 / Trabalhadores sem terra
 Trabalho no Campo 52
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A idia  perenizar o Capibaribe, que em certas pocas do
ano deixa de correr devido  seca, pelo menos daquele ponto
para baixo. Abastecer cidades e povoados, irrigar, instalar criadouros
de peixe e camaro, explica Teomlson Cunha, um
dos engenheiros da obra. Mas o lago pode secar? S se houver
mais de cinco anos de seca brava. De acordo com estimativas
do Departamento Nacional de Obras contra a Seca
(Dnocs), responsvel pela construo, sero beneficiados mais
de 780 mil habitantes, a um custo de R$ 61 milhes.
Pelo menos nesse pedao, o Capibaribe ganha ares de So
Francisco.
 Bem me diziam que a terra/ se faz mais branda e
macia/ quanto mais do litoral/ a viagem se aproxima./ Agora
afinal cheguei/ nesta terra que diziam./ Como ela  uma terra
doce/ para os ps e para a vista./ Os rios que correm aqui/
tm gua vitalcia. (...)/ Mas no avisto ningum,/ s folhas
de cana fina;/ somente ali  distncia/ aquele bueiro de usina/
somente naquela vrzea/ um bang velho em runa./ Por
onde andar a gente/ que tantas canas cultiva?/ Feriando:
que nesta terra/ to fcil, to doce e rica,/ no  preciso trabalhar/
todas as horas do dia,/ os dias todos do ms,/ os meses
todos da vida.
Desfiando o rosrio de cidades abaixo, chega-se  Zona
da Mata. Terras que j foram mar, mar verde, de tanta canade-
acar plantada. Porm, de So Loureno da Mata at alm
de Limoeiro, hoje amargam a decadncia das usinas. Morros
cobertos de capim  espera de plantao, que no vem pela
falta de dinheiro, ao mesmo tempo que no vo para a reforma
agrria por pura especulao e mesquinharia.
Nos tempos de Severino, dezenas de chamins de usina
vomitavam fumaa dia e noite para dar conta da cana triturada
nas moendas e queimada nos bueiros (fornalhas onde a
Trabalho no Campo  53
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cana  queimada). Tradio histrica que vem da poca dos
engenhos, casas-grandes e senzalas nesta terra de Gilberto
Freyre. Dizia-se que as usinas consumiam gente. Ruim com
elas, pior sem elas. O fechamento de muitas deixou centenas
de cortadores de cana sem ter o que fazer. Eles passam a tarde
jogando domin nas praas dos vilarejos, esperando aparecer
alguma coisa. Ou seguem o rio at Recife para ser cobradores
de nibus, vendedores ambulantes ou exercer um sem-nmero
de atividades sem carteira de trabalho assinada.
As usinas esto fechando, falindo. E, para piorar, os cabras
esto botando mquina pra tudo:  mquina pra colher, pra
plantar, pra adubar. Gente no  mais necessria, reclama
Nelson enquanto aguarda sua vez na mesa de domin na vila
de Desterro. No lugarejo h olarias, que no do conta de
empregar todo mundo. Muito menos as usinas Petribu e So
Jos, na cidade de Carpina. Do mesmo proprietrio, so as
maiores ainda em funcionamento em toda a regio.
s margens do Capibaribe, encontra-se o que j foi a usina
Mussurepe, uma das maiores de Pernambuco, que empregava
mais de 600 funcionrios no seu apogeu e criou uma vila a
seu redor que quase ganhou status de cidade. Resta hoje um
esqueleto de metal, enferrujando com o tempo.
Fechou por causa da m administrao, lembra Gensio
Ribeiro da Silva, ex-escriturrio da usina. A ltima moagem
foi no dia 21 de dezembro de 1993, mas as dvidas com o INSS
e os impostos atrasados e no pagos permanecem at hoje.
Aos poucos, toda a parafernlia de metal foi sendo desmontada
e vendida.
Parte da usina foi comprada por um pessoal de
Araraquara, em So Paulo. Dizem que renasceu l, est bonita.
Pelo menos continua viva em algum lugar, n? Outra parte
foi para o Cear e est na fbrica de aguardente Ypioca. A
moenda est penhorada pelo Banco do Brasil.
Reza a tradio da regio que nenhum bueiro de usina
Texto 21 / Trabalhadores sem terra
 Trabalho no Campo 54
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pode ser demolido. Tem de cair sozinho para no trazer desgraa.
Prova disso  que todas as usinas que faliram e tiveram
suas dependncias vendidas para a instalao de olarias ou
outras indstrias mantiveram de p os bueiros de tijolos.
Segundo Gensio, na poca da dissoluo da Mussurepe,
parte das terras foi para os trabalhadores da usina. Mas o
pessoal no teve orientao nem crdito para plantar e acabou
perdendo tudo. Outros gastaram na farra e depois ficaram na
misria. Hoje nomes de coronis e de gente rica esto estampados
nos certificados de propriedade.
Na dcada de 1980, quando a dvida com os bancos atingiu
ndices estratosfricos, os trabalhadores chegaram a arrancar
as tbuas da ponte sobre o Capibaribe para impedir que a usina
fosse desmantelada e agentasse um pouco mais, lembra
Severino Soares de Lima Filho, de 31 anos. Seu pai trabalhou
na Mussurepe desde 1918, sete anos aps o engenho de cana
do sculo 19 ter virado usina. Nascido em 1898, casou trs vezes
e teve 28 filhos - fora os perdidos pelo mundo. Hoje, Severino,
o filho, trabalha com mototxi na cidade de Pau dAlho.
 Mas no senti diferena/ entre o Agreste e a Caatinga,/
e entre a Caatinga e aqui a Mata/ a diferena  a mais mnima./
Est apenas em que a terra/  por aqui mais macia;/ est
apenas no pavio,/ ou melhor, na lamparina:/ pois  igual o
querosene/ que em toda parte ilumina,/ e quer nesta terra
gorda/ quer na serra, de calia,/ a vida arde sempre com/ a
mesma chama mortia.
Extrado do site www.reporterbrasil.com.br
Trabalho no Campo  55
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Em 11 de maio de 1937, um rudo no cu da chapada do
Araripe assustou os camponeses. Com medo, eles tentavam
se esconder entre as rvores enquanto mquinas voadoras
deslizavam pelos ares daquela regio do Cariri, no sul do
Cear. Homens, mulheres e crianas fugiam de algo que, com
certeza, viam pela primeira vez. O desespero foi ainda maior
quando os avies da Fora Area Brasileira (FAB) comearam a
metralhar. Muitos ali devem ter sussurrado o derradeiro painosso.
Outros nem tiveram tempo para tanto.
Quarenta anos aps o massacre dos sertanejos liderados por
Antnio Conselheiro, em Canudos, na Bahia, e 20 anos depois
da Guerra do Contestado, episdio com desfecho semelhante
ocorrido nos estados do Paran e de Santa Catarina, as tropas de
diferentes esferas do poder pblico novamente uniam foras para
abater humildes agricultores brasileiros. Desta vez, as vtimas
pertenciam  comunidade do stio Caldeiro, cujo lder era o
beato Jos Loureno.
Naquele dia, a polcia militar do Cear e os avies enviados pelo
Ministrio da Guerra exterminaram nordestinos religiosos e pacficos
que por dez anos tinham buscado apenas uma forma de sobreviver
s mazelas da vida sertaneja: seca, fome, coronelismo... Em 21
de maro de 2005, o Conselho Estadual de Preservao do
Patrimnio Cultural do Cear (Coepa) tombou uma rea de 60
hectares pertencente ao ncleo do que um dia foi o stio Caldeiro.
Com isso, o governo estadual tenta corrigir um erro histrico,
A SAGA DE JOS LOURENO
Desapropriao da comunidade do Caldeiro, onde sertanejos
buscavam a liberdade em comunidade autnoma no semi-rido
cearense, completa 70 anos. Expulso das famlias foi seguida
por massacre em que morreram cerca de 700 pessoas
Igualdade e auto-suficincia
TEXTO 22
 Trabalho no Campo 56
Texto e fotos
de Joo Mauro
Araujo, especial
para a Reprter
Brasil
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reconhecendo a importncia do episdio em que migrantes, principalmente
do Rio Grande do Norte, viveram uma utopia de
igualdade e auto-suficincia baseada na f crist. A medida,
porm, no pde reparar a morte dos 700  400, segundo dados
oficiais  seguidores de Jos Loureno, discpulo do padre Ccero.
Formao
Assim como em Canudos, a populao do Caldeiro era formada
por sertanejos que viam o misticismo como nica alternativa
para a sobrevivncia no semi-rido.
Longe do litoral nordestino, um emaranhado de crenas 
crists e pags  caracterizava a religiosidade popular das terras
secas nas primeiras dcadas do sculo 20. Sem contar com assistncia
do Estado e da Igreja para enfrentar as dificuldades de
sobrevivncia, os sertanejos tinham poucas opes, como o cangao,
o trabalho semi-escravo nos latifndios dos coronis ou o
misticismo. Assim, Virgulino Ferreira da Silva se tornou o
"Lampio". E Antnio Vicente Mendes Maciel, o "Conselheiro".
Quando deixou seu lar para trabalhar em fazendas de gado
prximas  sua cidade, no estado da Paraba, Jos Loureno
Gomes da Silva era ainda jovem. Ao retornar para casa, aps
anos de ausncia, soube que seus pais haviam mudado para
Juazeiro do Norte, no Cear  lugar que se tornara um plo de
atrao devido  fama do padre Ccero.
Em 1890, j novamente ao lado de sua famlia, Jos
Loureno acabou conquistando a amizade do famoso sacerdote.
Depois de viver alguns anos nas proximidades de Juazeiro e de
integrar algumas seitas de penitentes  pessoas que rezavam em
cemitrios pelas almas do purgatrio e que praticavam autoflagelao
para se purificar dos pecados , o paraibano arrendou o
stio Baixa Dantas, onde formou uma comunidade. De 1894 a
1926, ali foi desenvolvida sua primeira experincia de trabalho
coletivo igualitrio. Enxada na mo, Jos Loureno e seus companheiros
enfrentaram o desafio imposto pelo terreno pedregoso
e passaram a cultivar frutas, cereais, algodo e hortalias.
Trabalho no Campo  57
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A comunidade crescia  medida que muitas famlias chegavam a
Juazeiro  a "meca sertaneja" - sem ter trabalho ou moradia e
eram encaminhadas pelo padre Ccero aos cuidados do beato.
Apesar dos progressos no Baixa Dantas, a vida dos moradores
do lugar no foi isenta de percalos. Em 1921, surgiu o boato de
que o boi doado pelo padre Ccero para melhorar a raa do gado
local estava sendo adorado pela comunidade. Floro Bartholomeu,
chefe militar de Juazeiro, prendeu Jos Loureno por 18 dias e
matou o boi, num ato denominado por ele de "combate ao fanatismo".
Anos depois, o beato enfrentaria outra situao intrincada. O
stio em que a comunidade vivia foi vendido, e o novo proprietrio
expulsou os camponeses sem qualquer indenizao.
Diante desse problema, o padre Ccero encaminhou Jos
Loureno e seus seguidores  sua fazenda Caldeiro dos Jesutas.
A aridez do lugar, limitado ao norte pela caatinga e ao sul pela
floresta do Araripe, no desanimou o hbil grupo de lavradores
que havia trabalhado por 32 anos no Baixa Dantas. Tocado como
um projeto coletivo, logo o Caldeiro comeou a se transformar.
Famlias de todo o nordeste, a maioria proveniente do Rio
Grande do Norte, passaram a viver de trabalho e orao naqueles
500 hectares no interior do Cear, que chegaram a comportar 2
mil pessoas. Ali tudo era feito em sistema de mutiro, e imperava
a cooperao. As obrigaes eram divididas e os benefcios distribudos
conforme as necessidades de cada um.
Sem coronis para explorar a mo-de-obra, os camponses
experimentaram sopros de liberdade. A paraibana Maria Incia
tinha 10 anos quando morou no Caldeiro, lugar que recorda com
um olhar saudoso: "Era o mesmo que um cu aberto. Logo que
amanhecia, meu padrinho Loureno era o primeiro a sair para a
lida. Ns tomvamos caf ali mesmo, na roa. s 9 horas vinha
uma carga de rapadura para merendar, e s 11 chegavam as cozinheiras
com o almoo. Na roa, tudo o que se planta d, l a gente
plantava", lembra enquanto mostra orgulhosa as fotos dos "padrinhos"
Ccero e Jos Loureno, penduradas na parede da sala.
Texto 22 / Igualdade e auto-suficincia
 Trabalho no Campo 58
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Durante seis anos se trabalhou na construo da Capela de
Santo Incio de Loyola, que foi abandonada inacabada em 1936.
Para os membros da comunidade, era importante que houvesse
uma igreja onde pudessem praticar a religio tradicional.
Dentre as virtudes da comunidade do Caldeiro, tambm
conhecida como Irmandade de Santa Cruz, a caridade sobressaiu
durante a seca de 1932. Constantes no semi-rido nordestino, duas
grandes estiagens foraram os sertanejos a migrar para o litoral nas
primeiras dcadas do sculo passado. Para controlar a "invaso de
flagelados" na de 1915, o governo do Cear construiu o Campo de
Refugiados do Alagadio, onde uma epidemia de varola matou
boa parte dos reclusos. Em 1932, com a inteno de manter os retirantes
longe de Fortaleza, os rgos pblicos intensificaram as
medidas de conteno. Assim, ergueram sete campos de concentrao
- ou "currais", na linguagem popular - distribudos pelas linhas
frreas do estado.
Enquanto os dois campos prximos da capital reuniram cerca
de 5,5 mil pessoas, o de Buriti, no Crato, que tinha capacidade
para no mximo 5 mil, aglutinou por volta de 18 mil. Segundo a
historiadora Rosngela Martins, durante a seca de 1932, os refugiados
de Buriti foram vigiados rigorosamente por sentinelas.
Havia ali at mesmo uma priso interna para os desobedientes.
Por causa da desnutrio e de doenas, "morria gente todos os
dias, e um caminho passava recolhendo os corpos no final da
tarde para jog-los em valas na parte alta do campo", afirma
Rosngela.
Alguns retirantes tiveram sorte e conseguiram driblar o
Campo de Buriti e chegar at o Caldeiro, onde as atividades
corriam normalmente, j que mesmo nos anos de estiagem no
faltava comida. Jos Loureno solidarizou-se com os sertanejos e
integrou  sua comunidade pelo menos 500 pessoas que pediram
auxlio.
Trabalho no Campo  59
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Exemplo ecolgico
O termo "caldeiro", antes de dar nome ao stio que abrigou a
irmandade liderada pelo beato Jos Loureno, j designava uma
falha geolgica formada por pedras que se enchiam de gua do riacho
que por ali passava. Essa estrutura natural foi muito importante
para o desenvolvimento da comunidade, porque a gua ficava
acumulada no "caldeiro" mesmo em tempos de seca.
O clima na regio do Cariri  semi-rido, com chuvas concentradas
nos quatro primeiros meses do ano. Depois desse curto
perodo, nem uma gota cai do cu. Por isso o desafio maior para
o pessoal do stio era irrigar as plantaes, uma vez que o solo
no possibilitava a reteno de gua.
Para o gegrafo Arlindo Siebra, a comunidade era um exemplo
de bom uso dos recursos naturais. "Como  possvel sustentar
toda uma comunidade dependendo de um solo que tem restries
agrcolas? O grande mrito do beato foi exatamente este:
ele soube utilizar os recursos e o ecossistema do semi-rido", afirma
o gegrafo. Alm do modus vivendi igualitrio, o Caldeiro
foi um exemplo ecolgico para o nordeste. Segundo Siebra, a
comunidade construiu vrias microbarragens e dois audes.
Faziam tambm um tipo de cisterna, que cobriam para evitar a
evaporao, armazenando a gua no subsolo.
Outra caracterstica importante frisada por Siebra era o nodesmatamento
da "coroa da serra"  como so chamadas as partes
mais altas da fazenda. Normalmente os agricultores trabalham
com rotao de culturas, ou seja, queimam a vegetao para
adubar o solo e depois plantam durante cerca de trs anos.
Posteriormente, abandonam a rea  deixam a vegetao brotar
de novo, o que chamam de "encapoeiramento"  para repetir o
processo aps trs ou cinco anos. A falta de espao, porm, impedia
Jos Loureno de fazer as rotaes.
Segundo Siebra, o beato "s plantava abaixo da 'coroa da
serra', e apenas em um trecho por ano, passando depois para
outro. Como a cobertura vegetal da coroa permanecia intacta,
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quando chovia as sementes eram dispersadas de cima para baixo.
Dessa maneira, utilizando a fora da gravidade, a rea encapoeirava
mais rpido que um terreno plano". Com esse manejo agrcola,
somado  criao de peixes e de gado, as quase 2 mil bocas
da irmandade no sentiam falta de comida.
Expulso
A amizade com Padre Ccero garantiu por dcadas a segurana
de Jos Loureno.
Se no Baixa Dantas os camponeses perderam o direito  terra
e tiveram de sair s pressas, no Caldeiro no foi diferente. Alis,
pior. Jos Loureno no era considerado pelas elites do Cear um
simples beato analfabeto e inofensivo, mas um perigoso lder capaz
de articular grandes levantes contra a ordem pblica. O principal
problema apontado era a organizao da comunidade, que as oligarquias
tachavam de comunista.
As autoridades, na verdade, queriam o fim do Caldeiro, mas
havia um problema: a ligao entre o beato Jos Loureno e o
padre Ccero. Brigar com o "Padrinho" no valia a pena, em hiptese
alguma. Porm, com a morte do sacerdote, aos 90 anos, surgiu
a oportunidade to esperada, uma vez que desde 1923, o
testamento do religioso garantia a propriedade do Caldeiro aos
padres salesianos.
Por essa razo, o beato Jos Loureno teve de comear a
pagar tributos aos novos proprietrios pelo usufruto da terra.
Segundo Jos Tavares de Lira, filho e neto de ex-moradores do
Caldeiro, seu pai sempre levava uma tropa de burros carregada
de gneros para os salesianos. Contudo, em 1936, o bacharel
Raymundo Nores Milfont, representante jurdico dos padres,
solicitou reintegrao de posse.
As autoridades temiam resistncia semelhante  de Canudos,
onde o exrcito brasileiro fora seguidas vezes derrotado, at que,
Trabalho no Campo  61
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em 1897, promoveu o massacre de milhares de camponeses.
Alegaram tambm o risco de o Caldeiro resvalar para as mos
de lderes marxistas, j que no final de 1935, Lus Carlos Prestes
tinha comandado a Intentona Comunista, cujo primeiro levante
havia ocorrido no Rio Grande do Norte.
No dia 11 de setembro de 1936, as foras do Estado invadiram
o Caldeiro. Policiais civis e militares entraram marchando,
mas no encontraram o beato Jos Loureno, que havia fugido
para a floresta da chapada do Araripe, onde ficou escondido at
o incio de 1938. L ele tomou o cuidado de no fixar residncia,
vivendo de forma nmade em construes de palha improvisadas,
alimentando-se de frutas silvestres e, por vezes, de gneros
doados por amigos de fazendas prximas. No dia da invaso,
porm, o capito Cordeiro Neto ficou confuso sobre a atitude a
tomar diante das mais de 400 casas de taipa. Optou pela devastao:
expulsou os moradores, queimou os casebres e entregou
parte dos bens ao municpio do Crato. "A polcia chegou l e acabou
com tudo. Levaram o que havia no armazm, e at as portas
da casa do beato", conta Jos Lira.
No incio de 1937, as autoridades receberam denncias sobre
o pessoal de Jos Loureno, que aps a dissoluo da comunidade
vivia internado nas matas da chapada do Araripe. Corriam
boatos de que ex-integrantes do Caldeiro, chefiados pelo mensageiro
Severino Tavares, atacariam o Crato. Ciente disso, o capito
Bezerra e 11 soldados da polcia de Juazeiro foram at l para
checar as informaes e entraram em conflito com um grupo de
camponeses. Nesse embate, morreram o capito e trs praas. Do
outro lado, foram cinco perdas, entre elas, Severino. Aps a divulgao
daquele conflito, fortes contingentes militares partiram de
Fortaleza  caa dos remanescentes do Caldeiro, determinados a
vingar a morte do capito Bezerra. O ministro da Guerra, general
Eurico Gaspar Dutra, colocou a fora federal  disposio do
governo cearense e autorizou o vo de trs aparelhos do
Destacamento de Aviao, sob responsabilidade do capito Jos
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 Trabalho no Campo 62
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Macedo, para auxiliar no reconhecimento da zona e localizao
dos camponeses.
Dos avies, as metralhadoras dispararam, enquanto 200
patrulheiros vasculhavam a chapada do Araripe para concluir a
misso. Naquele 11 de maio de 1937, cerca de 700 lavradores
foram massacrados. Nenhum soldado morreu. Mesmo depois da
"grande investida" militar, policiais continuaram a perseguir,
prender, torturar e matar pessoas que se vestissem de preto e
portassem rosrio  as caractersticas dos seguidores do beato.
Em 1938, Jos Loureno retornou ao stio Caldeiro e ali
permaneceu por dois anos, at ser novamente expulso pelo procurador
dos padres salesianos, proprietrios da fazenda. Seguiu
ento para Exu, no lado pernambucano da chapada, onde montou
outra comunidade, no stio Unio, comprado com os 7 contos
de ris recebidos como indenizao por uma parte dos bens
do Caldeiro. O advogado do beato tentou mover uma ao contra
o Estado para recuperar a totalidade das perdas do arraial,
todavia o pedido no foi atendido.
Jos Loureno morreu em 12 de fevereiro de 1946 no stio
Unio, vtima de peste bubnica. Seguidores carregaram o caixo
com seu corpo, a p, de Exu at Juazeiro do Norte, num percurso
de 70 quilmetros. Depois da longa e cansativa jornada, o corpo do
beato foi velado na casa de seu seguidor Eleutrio Tavares. Em
seguida, os fiis solicitaram uma missa a monsenhor Joviniano
Barreto, porm o vigrio no apenas recusou o pedido, como proibiu
a entrada do esquife na capela: "Eu no celebro missa para bandido",
alegou o sacerdote.
Aps serem rejeitados na "casa de Deus", e debaixo da chuva
que caa em Juazeiro do Norte, os amigos do beato fizeram o
sepultamento em outro cemitrio.
Trabalho no Campo  63
Reportagem publicada originalmente em agosto de 2005 e
produzida graas a uma parceria com a revista Problemas Brasileiros.
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Expediente
Comit Gestor do Projeto
Timothy Denis Ireland (Secad  Diretor do Departamento da EJA)
Cludia Veloso Torres Guimares (Secad  Coordenadora Geral da EJA)
Francisco Jos Carvalho Mazzeu (Unitrabalho)  UNESP/Unitrabalho
Diogo Joel Demarco (Unitrabalho)
Coordenao do Projeto
Francisco Jos Carvalho Mazzeu (Coordenador Geral)
Diogo Joel Demarco (Coordenador Executivo)
Luna Kalil (Coordenadora de Produo)
Equipe de Apoio Tcnico
Adan Luca Parisi
Adriana Cristina Schwengber
Andreas Santos de Almeida
Jacqueline Brizida
Kelly Markovic
Solange de Oliveira
Equipe Pedaggica
Cleide Lourdes da Silva Arajo
Douglas Aparecido de Campos
Eunice Rittmeister
Francisco Jos Carvalho Mazzeu
Maria Aparecida Mello
Equipe de Consultores
Ana Maria Roman  SP
Antonia Terra de Calazans Fernandes  PUC-SP
Armando Lrio de Souza  UFPA  PA
Clia Regina Pereira do Nascimento  Unicamp  SP
Eloisa Helena Santos  UFMG  MG
Eugenio Maria de Frana Ramos  UNESP Rio Claro  SP
Giuliete Aymard Ramos Siqueira  SP
Lia Vargas Tiriba  UFF  RJ
Lucillo de Souza Junior  UFES  ES
Luiz Antnio Ferreira  PUC-SP
Maria Aparecida de Mello  UFSCar  SP
Maria Conceio Almeida Vasconcelos  UFS  SP
Maria Mrcia Murta  UNB  DF
Maria Nezilda Culti  UEM  PR
Ocsana Sonia Danylyk  UPF  RS
Osmar S Pontes Jnior  UFC  CE
Ricardo Alvarez  Fundao Santo Andr  SP
Rita de Cssia Pacheco Gonalves  UDESC  SC
Selva Guimares Fonseca  UFU  MG
Vera Cecilia Achatkin  PUC-SP
Equipe editorial
Preparao, edio e adaptao de texto:
Editora Pgina Viva
Reviso:
Ivana Alves Costa, Marilu Tassetto,
Mnica Rodrigues de Lima,
Sandra Regina de Souza e Solange Scattolini
Edio de arte, diagramao e projeto grfico:
A+ Desenho Grfico e Comunicao
Pesquisa iconogrfica e direitos autorais:
Companhia da Memria
Fotografias no creditadas:
iStockphoto.com
Apoio
Editora Casa Amarela
Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
(Cmara Brasileira do Livro. SP, Brasil)
Trabalho no campo / [coordenao do projeto
Francisco Jos Carvalho Mazzeu, Diogo Joel Demarco,
Luna Kalil]. -- So Paulo : Unitrabalho-Fundao
Interuniversitria de Estudos e Pesquisas sobre o Trabalho ;
Braslia, DF : Ministrio da Educao. SECAD-Secretraria
de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade,
2007, -- (Coleo Cadernos de EJA)
Vrios colaboradores.
Bibliografia.
ISBN 85-296-0066-5 (Unitrabalho)
ISBN 978-85-296-0066-6 (Unitrabalho)
1. Livros-texto (Ensino Fundamental) 2. Vida no campo -
Trabalho I. Mazzeu, Francisco Jos Carvalho.
II. Demarco, Diogo Joel. III. Kalil, Luna.
IV. Srie.
07-0390 CDD-372.19
ndices para catlogo sistemtico:
1. Ensino integrado : Livros-texto :
Ensino fundamental 372.19
eja_expediente_Campo_2383.qxd 1/26/07 3:21 PM Page 64

